Nodame Cantabile

Uma boa parte de quem eu encontro na internet (e não só, já perdi a conta às vezes que encontrei verdadeiros fãs aqui) adora ver animes. Há agora um mundo imenso de animações japonesas divulgadas seja na televisão, youtube… bem, não é difícil de encontrar. E há para todos os gostos. Se gosta de futebol, romance, ficção científica, demónios, qualquer coisa.

Nodame Cantabile é um mangá de Ninomiya Tomoko, adaptado a anime e a dorama. Durante toda a história, a música assume um papel indispensável, seja o de tomar a sua palavra na história quando os próprios personagens não falam, seja o de acompanhar a narrativa até ao fim, em tom alegre ou mais melancólico. E isso torna-o um anime a ver. Não só pela história agradável, que tem o seu lado cómico bem acentuado, como pela sua proximidade a música clássica. Nomes como Mozart e Beethoven são perfeitamente comuns ali.

Eu mesma descobri Nodame Cantabile há pouco menos de um ano, e até mesmo o mangá de traços simples demais me cativou. É certo que é arriscado escrever no estilo musical, já que a música é ela própria uma linguagem distinta, difícil de traduzir inteiramente por palavras ou desenho. Corre-se sempre o risco de se perder algo. A autora conseguiu, porém, conjugar o mangá com a música, buscando a sensibilidade dos personagens face a esta mesma, em traços surreais. Mesmo que estes não substituam o som, apelam a sua presença, quase como um convite sedutor para a ir procurar e ouvir.

A história, que decorre entre a música, começa com as memórias de Chiaki Shinichi, um estudante de piano que se sente perdido e desvalorizado na música, por estar preso no Japão (uma vez que Chiaki tem terror de aviões e navios, pelo medo que ganhou numa aterragem forçada e num quase afogamento) Juntando a isso uma personalidade arrogante, orgulhosa e fechada, torna-o um tanto quanto difícil de lidar. Depois do seu desentendimento com o seu professor e do fim de namoro com a namorada, tudo parece perdido… até conhecer a sua vizinha, Noda Megumi. Apesar de já a ter ouvido na universidade, sem saber quem era, só a conhece depois, no seu apartamento.

Nodame (como ela prefere ser tratada) é uma estudante de piano desleixada, infantil, desordenada, incapacitada de ler uma única pauta (e está na universidade), porém com um ouvido extraordinário e um dom natural para o piano. Partes difíceis para ela não são nada, apesar da sua dificuldade e da sua teimosia. Nodame não é, certamente, o melhor exemplo de aluna, nem de pessoa. Quando Chiaki descobre o apartamento dela, mal consegue respirar pela atmosfera de lixo, obrigando-a a limpar tudo e a tomar banho. Constantemente, quando ele lá vai, é obrigado a limpar-lhe a casa, cozinhar para ela e dar-lhe banho, ao ponto de se ver como um tratador de cães e ela como uma princesa numa ilha paradisíaca.

Já ela, não podia estar mais feliz. Convencida que ela e Chiaki são feitos um para o outro, é assim que vai continuar o resto do ano lectivo, a depender da culinária dele. Junta-se ao grupo Ryotaru Mine, um violinista fã de rock que, depois da ajuda de Nodame, Chiaki e Beethoven, se decide dedicar mais a clássica, Masumi que também nutre uma paixão por Chiaki, Kiyora Miki, uma exímia violinista que vai meio que emparelhar com Mine e me deu barrigadas de rir no anime, o oboeista Kuroki, e toda a Orquestra S, cujas reuniões rendem discussões para lá de excêntricas.

É quando o maestro Stresemann, a figura típica de velho génio prevertido que se apresenta a Nodame como Milch Holstein (o significado disso é, literalmente, “leite vaca”), aparece na universidade que a S-Oke (Orquestra S) é formada, com aqueles que são tidos como os piores alunos escolhidos a dedo por ele, e constantemente levados a festinhas duvidosas por ele. Estes, porém, revelam-se excepcionais, cada um à sua maneira.

Ainda assim, não chegámos ao ponto principal disto. Qual a relação de Nodame Cantabile com a música?

Primeiro, Cantabile é o termo italiano para uma melodia que se assemelha ao canto, usado para um tempo mais moderado e flexível pelos compositores. E escolher esse nome para a história foi uma boa jogada. Nodame é isso mesmo, flexível, com as suas características, fluindo com alguma naturalidade.

Para já, aquilo que eu disse desta mesma chegar ao ponto de tomar as rédeas da narrativa, num estilo surreal e expressivo, com a adaptabilidade e verosimilhança tão característica da clássica. Segundo, o vídeo ali de cima já deve ter dado o gostinho da apresentação única e original deles. E aquela foi a versão do dorama (a do anime também tem a sua graça, mas como é desenhada achei que não iam perceber a possibilidade e a dificuldade de tal). Mas não é só isto.

A forma como cada personagem trata a música é também ela única. Como a arte que é, os sentimentos que ela expressa. Cada um deles procura aquilo que um músico anseia pela sua vida inteira (eu, pelo menos): aquela execução capaz de tocar a alma, provocar tremores pelo corpo de emoção. Será algo difícil para alcançar, especialmente para Nodame e Chiaki, que têm de lidar com as suas dificuldades e os seus traumas, mas a magia está lá presente. Mesmo quando Nodame tenta desistir, ela acaba por regressar ao piano.

Há também a relação com os grandes compositores. Cada peça lá apresentada tem direito a, pelo menos, uma fichinha biográfica, fora quando os próprios personagens se apoiam na história por trás de determinada obra para se desenvolverem. Seja as interpretações divergentes da Sonata para Violino de Beethoven, Primavera, em que Chiaki pensa num campo de flores suaves e Mine parte para a exuberância da juventude, seja as composições de Mozart, Lizst e Ravel. Eu ri muito quando Nodame confessa a Chiaki que está a ter problemas com Schubert por não ser capaz de se entender com ele, ao passo que ele lhe responde para esta tentar compreender o compositor, de forma a fazer a peça. E a coisa resulta. Ali em cima, por exemplo, é Lizst, e a preferência de Nodame por tocar ao vivo, em público, e tocar da forma que ela quer.

Quando ela cisma que não gosta de Mozart, é porque já lhe disseram muitas vezes que ela o tocava de uma forma errada, e a sua primeira experiência com esse compositor envolveu um Chiaki enfurecido e uma partitura mal lida. Contudo, aparece vestida de Mozart no recital, levando Chiaki a compará-los. De certa forma, são ambos joviais, com pouca tendência a seguir regras, com excelente ouvido e sentido para a música. Mesmo com a desaprovação de alguns professores e juízes, Nodame é, de facto, excepcional ao piano, mas à maneira dela.

E aqui eu dou apoio a Nodame. É tão mais interessante ver os músicos ao vivo, ouvi-los de perto, sentir cada vibração da actuação no ar, quando o trabalho de instrumento é muito bom (e o público se comporta. Eu sei, estou a ser mázinha, mas eu não gosto de certas atitudes das plateias de concertos de pop e rock). E, diga-se de passagem, a S-Oke tem um nível de actuação que supera muitos. São capazes de agarrar nos instrumentos e conseguir extrair deles sons maravilhosos, sem obrigar o instrumento a nada. Tão natural quanto uma expressão deles, ou… cantabile.

Tenho a certeza que, mesmo no anime, haverão alturas em que muitos agarrariam a cadeira, suspender a respiração só para ver o que irá acontecer a seguir, principalmente na atuações. Ficar à espera do resultado, se terão conseguido impressionar o público de lá tão bem quanto nós. E sei que muitos estarão para arrancar os cabelos em determinadas partes do mangá. Houve quem reclamasse do fim, mas eu não sei como ficaria melhor. Sinceramente? Não alterando muito a relação entre Nodame, Chiaki e o mundo da música foi melhor do que de outra forma, porque não alterando muito assegura alguma continuidade natural à narrativa, sem saltos estranhos, desnecessários e bruscos. O resto, fica melhor se for deixado para a cabeça de cada fã.

Eu recomendo, para quem gosta de anime, romance, comédia e música. Sei que nem todos gostam de música instrumental, muito menos de música clássica, mas tanto o anime como o dorama e o mangá conseguem mostrar o lado divertido daquelas partituras que parecem tão difíceis à primeira vista. É divertido à sua maneira, nem que seja pelas figuras e expressões de Nodame, uma história cativante e a presença da música e de concertos bem executados, de uma forma distinta.

~ por Stradivaria em 27/11/2009.

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