Canto de Amor e Morte
Ontem, dia 5, tive o prazer de fazer algo que já há algum tempo que não faço: ir a um concerto. Isso, simplesmente. Ir a um concerto, arrastar o meu pai comigo para isso, ir, esquecer os problemas por um bom bocado. Ouvir música (e desculpem eu extravasar este sentimento, mas… boa música, daquela que prende a respiração, não um concerto qualquer de uma banda pop que agora ande famosa).
O concerto foi às 18 horas. Nisso, tenho de apoiar o Eborae, que pode ter alguns defeitos no que toca a organização, mas o esforço para manter estes concertos vivos compensa tudo. Apesar de estar cheio, não era propriamente uma plateia gigantesca. Infelizmente.
Da série Música no Inverno, Olga Pratts e o quarteto Lops Graça interpretaram Canto de Amor e Morte e Suite Rústica nº 2 de Lopes-Graça, e o Quinteto para Piano e Quarteto de Cordas, op. 57, de Schostakovich. Provavelmente, quem é do Brasil só vai reconhecer ali um nome (Schostakovich). Se os reconhecerem, então que bom para vocês. Garanto-vos que vale a pena saber de que se trata. Eu vou ver se encontro o vídeo no Youtube, porque foi tudo gravado que eu bem vi alguém a fazê-lo.
Começou com todos à espera que o sino da igreja ao lado se calasse. Risota pegada pelo público em geral. Antes disso ainda houve uma pequena apresentação pela Olga Pratts, que segurava os manuscritos originais de Lopes-Graça. Pausa aqui para recordar o quão difícil e privilegiante é ter um original nas mãos, e o cuidado que aquilo necessita.
Aliás, o concerto inteiro foi algo para lá de bom. Não sei se alguém aqui dos leitores já teve esta sensação: a de a música encher o espaço, transbordar, erguer-se acima de nós com uma força imensa, e, contudo, suave. Canto de Amor e Morte, que não tem aquele nome típico de obras (a maioria é sempre concerto, sonata, suite, quinteto, etc…), foi capaz de tocar a alma de quem ali assistia, num estilo português de ser.
Foi fácil, de certa forma, notar ali a diferença dos estilos. Primeiro Lopes-Graça, com inspirações inegáveis aqui das Terras de Viriato, e depois Schostakovich, muito mais romântico, muito mais dentro do estilo dos compositores russos. Quem ouve Rachmaninoff e Stravinsky (sim, esses dois mesmo) sabe do que eu falo, e é capaz de prever, mais ou menos, o estilo dele. E encontrar as diferenças.
Por isso mesmo, a riqueza que ali encontrei naquela noite. E o facto de haver uma quantidade considerável de pessoas a assistir, diz-me que, felizmente neste mundo, ainda há quem goste. A divulgação que houve, alguns cartazes apenas, não bateria nenhuma publicidade a algum concerto com mais fama, que chegam a ser cartazes pelo país a fora, com o apoio da televisão e da internet.
Termino, dizendo, se tiverem a oportunidade disso, vão a concertos deste género. Apoiem as orquestras e os conservatórios das vossas cidades, vão ver que não se arrependem. O meu pai é prova disso: não é grande fã, mas até gostou.
E para vos deixar com um gostinho do evento, encontrei um excerto (eu sabia):
