Histórias de Audições – nº 1

Esta é daquelas histórias que, ou eu conto agora, ou acabo por esquecer. Ou eu conto agora que ainda meio que rio com a parada, antes de me envergonhar por completo da figura que fiz. E não tarda mesmo muito a isso. Por isso, não, desta feita não vou meter nenhum vídeo para mostrar.

Bom, quem é aluno de Música, com certeza já teve audições. Lógico.

Eu já tinha tido uma única, bem levezinha, na qual me enganei (e pedi desculpa a meio, tal não é a minha cabeça),  e abandonei o palco… sem vénia nenhuma. Claro que me disseram logo isso: quando há aplausos, tu fazes uma vénia, não tratas de desaparecer o mais depressa que conseguires. Por isso, preveni-me desta vez. Aprendi a fazer a tal da vénia, já que eu sou educada.

Desta vez, eu era para actuar às seis horas de hoje, dia 10, com toda a pompa e circunstância que aquele lugar oferece. Como é uma igreja e eu só levava uma blusa polar tamanho XL que me ficava enorme (é da Quechua, são muito boas, aconselho, mas não num tamanho que vos fique tão grande porque as mangas depois atrapalham), a certa altura estava cheia de frio. Como tinha feito meia hora a andar, as minhas pernas pareciam gelatina e doíam. Nem sentia o coração. Estava branca, ou verde, ou sei lá como, de tão enervada que estava. Porque era para ter feito um ensaio antes daquilo, mas não houve tempo para mim.

Primeiro, assistir às audições dos mais novos. Engraçadinhos. Eu por acaso já vos disse que acho miúdinhos pequenos de violino de dois quartos a coisa mais amorosa de sempre? (Apesar de eu não gostar de crianças. Abaixo de quinze anos é demais para mim.) Umas quantas escorregadelas, desafinações (e o engraçado é que me disseram que lá era mais difícil, quando na verdade, estou com um outro sujeito que é bem mais exigente… e eu agradeço por isso.), rir à socapa do professor de violoncelo e dos contrabaixos (magnificamente molto potentes!), e achar que ainda me caía uma praga em cima por ser tão assim.

Só entrei às oito horas. Daí, esperei até actuar às nove horas. Como sempre, enervei-me, e como sempre lá vem o drama num copo de água. Tinha acompanhamento de piano, com a professora deles, que resolveu fazer a coisa uma bocadinho mais diferente do que aquilo que eu sabia. Ou seja, entrada decorada já era. Depois, o que posso eu dizer? Tenho a certeza que me enganei numa nota, ao meio houve um descarrilamento, a corda mi voltou a ranger da maneira mais hedionda possível. Mas houve aplausos. E disseram que estava bom. Não acredito, mas, milagre.

Saí de lá, depois da vénia feita, já que eu geralmente não repito desgraças, para o pátio ao lado, a cambalear, meio zonza. A meio disso, já tinha passado a porta, alguém apaga a luz do mundo à frente dos meus olhos e eu fico sem a menor noção de nada. A pior experiência que me podia ter acontecido, um quase desmaio ali mesmo. Tudo isso porque, finalmente, nem o corpo nem o cérebro conseguiram suportar aquele ataque de pânico, precisamente quando tudo acabou. E, vá lá vá lá, não me escarranchei no chão porque tive um galã para me segurar. Na verdade, era o pobre do meu professor, que agora ou me acha fraca ou ficou com medo do que me aconteceu à conta daquela brincadeira toda. Felizmente, ali tinha ar fresco, por ser um lugar aberto, e eu mais parecia com uma crise de falta de ar, quase a cair, sem força nenhuma nas pernas, a ser segurada por uma pessoa que agora será mais uma na lista das “eu tenho vergonha de olhar na cara”. Felizmente, depois de lá estar um bocado, arrumar as coisas ainda meio cambaleante, quase cair de novo mas desta vez por culpa da almofada deslizante que tive o azar de pisar, melhorei.

É claro que, teria sido melhor se o galã tivesse sido, na verdade, o genial aluno que, depois de mim e de outro, foi tocar Paganini, mas já vi que pedir a reencarnação do italiano para um filme mais açucarado que o Scaramouche é pedir demais.

Assim como é pedir demais eu conseguir fazer algo de jeito.

~ por Stradivaria em 10/12/2009.

3 Respostas to “Histórias de Audições – nº 1”

  1. Você não precisa sentir vergonha pelo quase desmaio, qualquer um pode ter um ataque de pânico em situações como essas ^^. Pelo menos isso aconteceu depois da audição, né? Se fosse comigo, eu teria caído dura e estatelada antes só para melecar tudo de vez. ¬¬’

  2. Nossa… Quando eu tinha audições de piano era horrível(grande parte do que me fez desistir de estudar música foram as audições) Mesmo sabendo tocar a música até de olhos fechados, ainda tinha a preocupação de pular um tempo, ou ainda esbarrar na hora(por tremer absurdamente)
    E você que ainda teve a sorte de ser segurada antes. Do jeito que me amavam naquele conservatório, provavelmente deixariam-me no chão mesmo. É a maldição dos palcos. xD
    teria mil coisas a observar aqui, no ritmo que anda compensa mais fazer uma postagem no blog ahah.

  3. eu ri da parte da almofada xD

    não deixe desanimar por causa dos probleminhas~
    eu queria muito ter a mesma chance que você, não exatamente tocando violino, mas..
    atualmente eu não ando ficando nervosa em apresentações (da escola ao menos).. acho que porque não penso em nada, sabe.. sei lá xD nem eu entendo

    mas eu imagino que sendo algo importante assim deva preocupar mesmo… mas o segredo é manter a calma, com certeza..

    (se eu vosse você, tirava sarro de eu mesma por muito tempo uashduasd)

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